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25 janeiro 2009

Pra Você

Pra você a minha escolha, a minha cara, a minha verdade, a minha coragem, a minha lua.
Pra você minha escova de dentes, meu açúcar, minhas sandálias, minha casa, minha rua.
Pra você o meu céu, a minha manhã, o meu entardecer, porque nunca é tarde pra você.
Pra você o meu vazio, o meu rio, o meu sorriso, a minha agonia, o meu cheiro, os meus cabelos, os meus sinais, a minha energia.
Meu azeite, minha seita, minha fome, minha sede, minha couraça, meu café, meu leite.
Meus ouvidos, minhas dicas, minhas brigas, minha boca e paladar, meus alicerces e vigas.
Pra você o meu nome e muito mais, a minha cama, o meu paraíso, a minha voz, meus pontos finais.
Pra você os meus amores, minhas vidas, o meu máximo, o meu mínimo, minha cruz, minha espada, o meu tudo e nada.
Pra você o meu amor, de formas tais, iguais as quais sejam todas as formas que uma mulher pode amar um homem.
E que eu seja sempre a mulher do homem que você é.

Suely S Araújo

26 dezembro 2008

Nosso Eterno Amor

Não há amor maior que o nosso amor, sobrevivente do tempo, de chuvas, de tempestades.
Não há amor mais corajoso e nem mais covarde.
Este que é capaz de tudo, e que quase nada faz.
Este que por nada abriremos mão de sentir, mas por ele de nada abdicamos.
Não há amor maior que o nosso amor.
Este que habita em canções, em lembranças e reminiscências.
Que traz nos registros do tempo a força do que ele é, a capacidade de eternizar-se por si só.
Este que mesmo não sendo vivido, com pouco já se mantém forte.
Este que sabemos que existirá em nós até a hora da morte.
Não há amor maior que o nosso amor.
Este que não cabe numa infinita frase, ou na breve emoção de um poema.
Este que não se reproduz, que não se vive em qualquer ficção ou qualquer tema.
Não há amor maior que o nosso.
Este que já nasceu querendo morrer.
Este que já nasceu para a eternidade.
Não importa se não podemos zerar nossas vidas, desde que façamos amor sempre pela primeira vez.
Pois não há amor como o nosso, que fazendo-se de morto vive o luto da própria viuvez.

(Suely S Araújo)

01 dezembro 2008

Presente

No que vivo existe eternidade.
Em minhas lágrimas existe o peso de todos os tormentos, a força de todo o meu amor, os gritos de todas as minhas dores.
Oh intensidade que me toma, alivia-me um pouco de ti!
Felicidade superficial dos lábios meus, vai-te enquanto estou só, porque agora estou apenas comigo.
Perigo dos pensamentos meus a mortalha suicida de minha dramática alma calada e séria.
O quanto eu sou fraca e forte ninguém jamais há de ver.
O quanto eu morro e vivo, ninguém jamais há de saber.
Todas as cores que pintam a existência, não são capazes de me dar qualquer tom.
Sinto culpa pelo que me causa saudades.
E saudades por minha própria culpa.
Em minha brancura desfalecente copio a hepática esperança de saciar-me em amor enquanto houver tempo.
O meu amor...
Eu tenho mãos para tocar-lhe, mas não o acho aqui.
Eu não vejo você.
Os anos têm passado diante de mim velozmente.
Se eu morrer antes, o grande amor da minha vida tem seu nome.
Por enquanto, tenho o espelho para olhar, para pensar, lembrar, chorar, chorar por estar chorando, chorar pelo que já chorei.
Sinto saudades suas...
Você cabe bem no meu abraço.
Mas estou envelhecendo longe do seu calor.

Suely S Araújo

01 novembro 2008

Insensível

Olhe para as suas unhas...
Sua delicadeza automática é ofensiva.
Você parece ser tão frio quanto o seu silêncio.
Sua busca por superficialidades nutre seu próprio vazio.
Seu vazio deriva do aborto dos seus sentimentos instantâneos.
Seus olhos são foscos.
Impossível você ter amor.
Olhe para as suas unhas...
É inútil. Nelas não há resquícios do meu cadáver.

Suely S Araújo

10 outubro 2008

O Meu Amor

O amor que eu sinto me mostra sempre uma luz quando tudo vira treva.
O amor que eu não tenho me mostra novas trevas.
O amor que eu sinto me alimenta a esperança, me traz a ternura no olhar, a pureza do crer naquilo que nem sempre tem fundamento.
O amor que eu não tenho me alerta para um futuro desgraçado e pequeno, contábil, desconfiado, inseguro, um futuro sem futuro.
O amor que eu sinto respira, inspira, fecha os olhos, chora, tenta relaxar, está sempre tentando se recuperar.
O amor que eu não tenho me asfixia de dor, me arranca os meus olhos, e me devolve quando está quase tarde pra isso, porque devolve quando não vejo mais o que eu via antes.
O amor que eu sinto, me mostra sempre um nunca é tarde.
O amor que eu não tenho, é o que eu não quero ter.

Suely S Araújo

19 setembro 2008

Verdades

Perdão por meus sentimentos.
Porque há verdade neles.
Há verdade na imperfeição deles.
Não disfarço meu amor, não sei também camuflar minhas dores, raivas, cócegas, insatisfação ou
gozo.
Não sei ser doce quando estou machucada.
Não sei ser indiferente com minha solidão, isto pode me fazer parecer indiferente a você.
Perdão por eu não sorrir todas as vezes.
Me lembro de muitas vezes em que eu não sorri, nem chorei; outras, chorei de rir.
Perdão por fazermos amor se eu estiver bem contigo e comigo mesma.
Não disfarço minhas vontades, não sei também camuflar meu desejo ou minha frieza, meu tesão ou
minha indignação.
Porque minhas emoções me omitem, mas não pretendo omití-las.
Eu quero ficar em mim, porque aqui eu posso me ver, me aguentar, aguentar o peso do chão que me
sumiu.
Tenho céu nublado ou estrelado, acinzentado, avermelhado, molhado, vazio, com rumo, sem rumo.
Se me tiram o chão, me resta o céu, se não há mais céu, sou eu que sumo.
Não sou chão, não tenho chão.
Ninguém pode me pisar.
Não sou céu, mas tenho um céu onde ninguém me sobrevoa.
Perdão porque fico bem contigo antes de ficar bem comigo.
Porque eu te perdôo antes de me perdoar por ter te permitido me fazer chorar.

Suely S Araújo

22 agosto 2008

RETIRADA

Retire-se do meu caminho, do emaranhado dos meus cabelos, de todas as minhas verdades.
Vá embora do meu cheiro, dos meus dedos, dos meus poros das minhas saudades.
Retire suas mentiras, o seu personagem da minha realidade, os seus santos das minhas preces.
Vá embora da fumaça dos meus incensos, do sabor do meu chiclete.
Retire-se das minhas cicatrizes, absorva a dor da minha ferida, e perca-me quando não lhe for querida.
Retire-se dos meus pés, das minhas meias, das minhas horas, da minha fidelidade.
Retire-se da minha idade, do meu universo, da minha universidade.
Retire-se da minha moralidade, da minha rua, da minha cidade.
Retire-se da minha metade, e de tudo, porque em tudo está você, e até anoitecer retire-se do meu amanhã.
Porque amanhã bem cedo eu terei despertado.

Suely S. Araujo

PELA JANELA

As luzes da cidade morrem de fome quando não brilhas, quando não vens na linha da minha janela.
A noite pra mim é sempre tarde. E é quando o meu dia começa, nesse cotidiano revirado de ponta cabeça.
Quando o mundo acabar eu não saberei, porque as coisas acontecem à luz do dia.
Apenas vou sentir a noite mais fria.
Apenas vou olhar a noite mais escura e sentir falta da companhia das estrelas e da lua sobre o meu quintal.
Quando você se der conta, eu ainda estarei lá, não fui como todos.
Por trás dos seus olhos sempre haverá verdade pra mim, mesmo que você não queira.
Porque, independente da sua vontade, sempre foi assim.
Não tenho você nas minhas madrugadas enquanto você ficava acordado comigo.
Mas, você não me tem em suas madrugadas, nem em seus dias, enquanto durmo.
Não me telefone, porque não desejo sua voz.
Não exista, porque não lhe serve existência se não lhe toco.
Você não serve pra mim, mas não se odeie por isso.
As luzes da cidade é que sempre brilharam sobre o seu vulto fosco.
Apenas sinta a noite mais fria.

Suely S. Araujo

Coma-me

Coma-me pelos meus pés, pelos meus anos, pelos meus pêlos e por meus enganos.
Coma-me por entre os dentes, pelos meus poros mais profanos, pelos medos, pelos talheres e charutos cubanos.
Pela fumaça da desgraça, pelo incêndio dos meus desejos, pelas ruas ou calçadas, coma-me por entre seus beijos.
Coma-me pelos lençóis entre sua fome, enquanto lhe permito provocar meu próprio grito, apenas coma-me.
Além dos seus olhares, dos seus tocares, dos seus beijares, coma-me com a sua capacidade de ser meu homem.
Coma-me pelo corredor, pelo fogão, sem deixar farelos de amor ou qualquer sobra pelo chão. Coma-me depois de comer, depois de beber, depois da digestão.
Depois de fazer amor, depois de me lamber, coma-me com o seu querer.
Enquanto houver minha vontade coma-me com voracidade.
Enquanto não lhe vomito, coma o meu espírito.
Coma-me coberto ou despido, coma o meu corpo e o meu vestido.
Depois de respirar, mastigue-me um pouco mais.
Depois de me engolir, coma-me sempre mais.
Seja faminto de mim, de um estômago sem fim.
Coma-me qualquer parte, de qualquer jeito, barriga, orelha ou peito.
Meu pescoço, meus ombros, minha feiúra, minha beleza.
Coma-me antes e depois da sobremesa.
Coma-me sobre a cama, devore-me na mesa.
Minhas unhas, minhas pernas, meu queixo, meu umbigo, coma o meu eu que lhe deixo mais faminto comigo.
Coma os meus créditos, meus saldos positivos, meus neurônios, meus dispositivos.
Minhas sandálias vermelhas, meu batom garoto, e meu batom,
em mim tudo o que houver de bom.
Coma os peixes do meu signo, meu penar, meu designo, o avião da minha boa surpresa, a velocidade da minha natureza.
Mastigue o meu punho, minhas veias azuladas, meus ossos, minhas almofadas, meus ouvidos, meu carpete, meu absorvente, meu cotonete.
O sal da minha doce pele, o mel que eu lhe revele, o que me houver de esculpido, coma o meu salto pisado e cuspido.
Coma-me disciplinadamente, com o equilíbrio de um delinquente, coma o juízo de minha cabeça, os meus cabelos em meu pente.
Devore em mim cada parte, coma o meu mundo, Vênus ou Marte.
Meu planeta em seus gametas, meu céu azul ou vermelho,
meu coração aos cacos, e o vidro do meu espelho.
Mastigue o meu raciocínio com algum derivado de laticínio, minha carteira de identidade com a santíssima trindade.
Coma-me de frente e de costas, com flores e velas postas.
Em corpo presente, em alma, em mente, devore-me cheio de gana e desejo eloqüente.
Uma mordida seguida de beijo, com sabor goiabada com queijo.
Eu, Romeu e Julieta comidos, em cada trovão ou relampejo.
Na loucura de um doido varrido, numa procissão ou num cortejo.
Coma-me nesta rua, na UTI, no Hospital das Clínicas, nas dores sem remédio.
Num precipício, num hospício, na sacada de um prédio.
Coma-me sofrido, entorpecido ou gótico,
em seu estado mais crítico, no seu gesto mais erótico.
Coma-me temperada com orquídea, na TV ou qualquer mídia, num protesto, ou manifesto sem nome, enquanto me manifesto em sua fome.
Devore o meu tesão, minha carne, minha história.
Mastigue o meu corpo e engula a minha memória.

Suely S. Araujo

08 agosto 2008

Esta Noite

Ofereço-lhe as estrelas desta noite, todas que mais brilharem, as que mais se destacarem...
Ofereço-lhe também aquelas mais discretas e esquecidas, as mais longínqüas que ainda possuem algum brilho fosco, mas onde ainda há beleza.
Ofereço a você a chuva, se chover esta noite...
Ofereço o cheiro do barro, da terra molhada, porque a nós agrada este cheiro, como a mim agrada a sua essência.
Ofereço o reviver dos nossos melhores dias, a primeira noite na sua companhia, o silêncio do mundo e a nossa cor favorita.
Ofereço a você os gritos das corujas que passarem sobre o meu quintal, as estrelas caindo são suas...
Ofereço-lhe o sereno, o orvalho, a nudez celestial, a atmosfera que a mim não pertence, a mais bela canção, o mais gostoso sabor...
Ofereço-lhe a nitidez sem seus óculos, a satisfação sem o seu vício, a maresia à margem da sua cama, a lua cheia em seu quarto...
Ofereço-lhe tudo esta noite meu amor, ainda que eu não possua... Porque minha saudade me faz viver por entre as migalhas de tudo o que poderia ser tão intenso com a sua presença.

Suely S Araújo

Minha Palavra

Eu estou triste agora, porque palavras são fáceis de serem ditas.
Eu não posso garantir a verdade de tudo o que eu já disse.
Você apenas acredita em mim, apenas acredita, e apenas enquanto quiser...
Um dia qualquer pode desacreditar de tudo...
Eu estou triste agora porque você é o meu foco, mas eu não o encontro.
Estou triste porque está chovendo, e como posso mostrar isto pra você?
Eu não posso lhe fazer ouvir a chuva caindo neste instante, mas ela cai em mim... E você apenas acredita enquanto quiser.
Eu queria os seus cuidados, mas seus caminhos se desviaram.
Estou triste porque agora está chovendo mais forte, e você pode duvidar disso.
Palavras são palavras, e eu não posso provar-lhe a verdade dessa chuva que cai.
Eu não posso lhe garantir que eu vivo todos os dias como se fossem um mesmo dia.
O tempo não passa pra mim, porque espero debruçada na incerteza.
O tempo não passa para o que eu sinto.
Aqui dentro tudo foi ontem, ou a alguns minutos...
Eu estou triste agora, porque você não sabe o que se passa comigo.
Eu estou triste porque eu jamais lhe vi chorar, mas sempre me vejo.
Eu corri e não saí do lugar.
Estou triste porque as palavras podem ser levadas ao vento.
Assim como as suas se foram.

Suely Araújo

22 junho 2008

Ausência de Mim

Não... Eu não me vejo no seu sorriso.
Não estou aí, nem qualquer vestígio de mim.
Não há meu vulto, minha lembrança ou qualquer adereço que me deixe fazer parte do seu cenário.
Mas eu estou aqui, e estarei enquanto eu viver.
Estou em você como você está em mim, na mesma medida, na mesma proporção.
Estou isolada dentro de você.
Só pra você, ou para o seu esquecimento.
Você se isolou em mim, só pra mim.
Não tenho você.
E você não me tem.
Somos cercados, e somos tão sós.
Se me engano, então falo apenas por mim.
Cercada e sozinha, sou assim.
Que todos explodam de risos e gozos.
Que todos amem, traiam, finjam, vivam, pousem.
Que algum dia você pouse outra vez em meus braços.

Suely S. Araújo