Submersos no vazio

É muita coisa para cabeças vazias com ânsias de nada
Opiniões baratas e compradas, vontades forçadas
Apenas palavras em distorção
Flores regadas por qualquer mão
Quadros pintados por um artista sem noção
Esculturas mal feitas sem nenhum plano de elaboração
O rito conduz à submissão
Grande demais pra se descobrir, pequeno em si pra existir

Aluizio Fidelis

Mórbida

Eu sou a capacidade mórbida de um coma que vegeta em êxtase com nada.
Um paciente em constante convulsão
Um arbusto seco que faz sombra para o aborto em decomposição
O odor de necrose de um cancerígeno
A mulher que será violentada pro resto da sua mísera vida
O descompasso do frustrado
O arrependimento de um ser que rejeitou a sua cria
Um vazio em crescente combustão
O estreito curvo
O lado afetado da geração.

Aluizio Fidelis

Relatos de um intruso

Vem como um vulto, para a sombra, os pobres de crença
Passa leve, tão leve que o chão se desfaz.
Intruso confuso, indo de encontro à perdição, relatando fatos
De horror e possessão.
Fluido negativo, porta aberta para quem?
Carnificina na mente de quem convém, é um fardo que se renova,
Trazendo novas crias do além.
Criadouro da zombaria, risos pelas costas, ironia, pensamentos degenerativos,
Piadas feitas todo mísero dia.
Sonhos, fendas para novas agonias, pesador se diverte, presenciando
O desespero, esse momento de estrema nostalgia.
Influência nefasta, entorta e atrasa, qualquer forma de manifestação contrária.
Flagelos expostos, conseqüência de um mundo inclinado para a perversão.
Domínio imediato, impregnação, daqueles que estão obstinados à real destruição.

Aluizio Fidelis

[...]

Não há vida, nem estratégias e caminhos a serem seguidos.
O que se desfez não é o mesmo que foi concebido.
No auge das armadilhas pronunciadas, os fatos à expressão falha
De bruços e de mãos atadas, o conformismo e o corte e a navalha,
O impulso, a hora marcada, a rua sem entrada, os trincos
Quebrados, a ilusão disfarçada
Bem longe sem alcance do tudo e do nada,
Sem justificativas ou histórias a serem contadas.

Aluizio Fidelis

[...]

Memória extensa ao alcance de tudo que se perturba e deplora
Antro de discórdia, cubículo de chão escavucado e imundo
Restos em retalhos, faces do passado, expressão de tormentos
Vividos entre labirintos e intimidades.
Enclausuramento, abstrações da mente, mundo desconhecido
Invisível aos olhos e pensamentos.
Cria o próprio ninho de refúgio.

Aluizio Fideles

O ósculo da morte

Sou reflexo de sobra
Na falta de uma luz
Sou dobradiça dos olhos de ninguém
Sou a coisa mais esperada e a mais temida
Sou o começo da dúvida e o fim da mesma
Sou o lado seco da chuva
Sou a opinião do espelho
Sou a vigésima quinta hora e o décimo terceiro mês
Sou a fome da terra e a ferrugem da carne.

Wendell Nascimento

Ziquizila

Ziquizila da noite sombria.
Chão infalso.
Corda que se partia.
Falso calço.

Ziquizila do moribundo.
Noite madrugada.
Motivo do fim do mundo.
Transa que não agrada.

Ziquizila do intelecto.
Misera no couro.
Sobra de dialeto.
Praga banhada de ouro.

Ziquizila de rato que urina.
Doença que pega.
Tristeza junina.
Depressão que se entrega.

Querida Ziquizila de esgoto.
Martírio de enfermo.
Vivo quase morto.
Corpo mais que ermo.

Ziquizila babenta de comigo ninguém pode.
Queda íngreme de escada.
Banho de lama, carne de bode.
Tosse de sangue, morte de nada.

Vidal