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11 julho 2011

SUKU city



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Levanto uns trezentos de mim da mesma cama,

Enfrento uma fila de personalidades para ver-me diante do espelho
Uso computador neste momento com mais de um pensamento
Ainda tenho que alimentar todas as dezenas de bocas que tenho
Da fome que nunca sacia.

É dez mil musicas para três ouvidos
Oito televisões olhos à vista de aranha
Quatro braços e duas cabeças
Cem pernas sem destino
E no fundo de um copo seco
Um só coração batendo infinitos.

para ler e ver mais sobre Suku (poeta, fotógrafo, cronista, ilustrador e outras vagabundices) clic [aqui]

17 abril 2011

Outras Noizes

Penso em ruídos
e passo o dia todo no travesseiro
por isso não há crianças correndo
e no fundo das ruas
moeda não tem.

Ainda penso em ruídos
conto números
36 botões em um remoto controle
calculo, há penas, faltam dois,
para cobrir todo meu peito
e o meu coração, a vida brecha.

Quase esqueço,
sendo que insisto e lembro
e fico ouvido e pensando em ruídos
pois, não há música boa para mim.
Há algum cantor? Algum silêncio? Nada? Nada do nada?
Nem sobre o nada? Tem certeza?
Por isso, faço um desenho em cima do que foi teu nome
E volto pra travesseiro para pensar em ruídos.

Aldemir Suku,
início de outono, de 04 de Abril de 2010

17 março 2011

Fragmentos de uma Mente de Criança Nada Admirável

Companheiros e Companheiros, enfim foi chegado a grande hora do fim desta viagem nesta nau retirante de horizontes esperançosos que navegou por muitas águas e atracou em ilhas e continentes sem nome.

Nas varias poças que estivemos, achando-o este dito cujo: mar. Pequeno demais. Apesar de sua preguiça sábia espelhada, transparência transitórias de golfinhos, a demasiada realidade existente de Deus sendo de todo um vento só. Tivemos que ser corajosos e catar alguns marujos que estavam ali, figurando-se no cais, esses loucos, divertidos, humanos e humildes, estes que pela dificuldade da vida só tem uma banda da maça na cabeça. Estes que sempre disseram sim e no medo glorificam a talhada frase: estou contigo.

Vocês sabem bem que eu nunca desempenhei bem meu papel de capitão, mas, sempre fui visto por vocês como líder companheiro, louco camarada e de facetas maiores.

Durante o dia cruzado e a noite vazada, alguns que permaneceram insones ao meu lado viram meus dedos dançar no mapa das horas, sempre indo aonde o extinto aventureiro mandasse. Tivemos que brigar muito neste ano, brigar bastante e meus rivais sabem disto, quando lutei com piratas, quando tremi na frente de meus fantasmas, e os marcianos cabeçudos? Tão estranha criatura que nem muito aguentou meus socos. Houve homens carrancudos com cara de mal, mulheres cobras que se apresentavam como musas, sereias que levou um pouco da minha tripulação. Homens são uma merda, como disse Bengala Veia, grande marinheiro, antes de cair nos seios fartos da sereia.

Hoje meus caros, eu não me encanto por mais nada, nem tão pouco hei de procurar as filosofias orientais. Nem as presenças dos índios. Nem santos e demônios. Nem os becos de beiço estreitos, o fundo do copo. Nem a solidão de um abismo. Só dois tipos de homem fazem trajetos dentro da alma sem ajuda alguma: um cego ou um gênio. Eu não sou nenhum dos dois.

Durante os sois que vieram e as luas que me deram as coisas, tive grandes paixões. Isto não poderia deixar de comentar. Ambas me ajudaram em tudo. Cada uma rasgando a seda de meu coração. Ambas me ensinaram o caminho de cada rua de e de cada nova cidade que eu visitava, conquistava e destruía. Uma me ensinou-me a simplicidade de sentar ao chão e ir nas costas das formigas, beber da chuva quando se tem sede, respirar para poder ir com o peito feito um balão, leve, adoçar os pés com grãos de areia, rir e ser verdadeiro apesar da presença da falsa mágica que há em cada vida, não ser tão doido e pestilento, o hospício realmente não me trás boas saudades. A outra me mostrou a sabedoria escondida em mim, a arte de amar, a poesia mútua e profana, a filosofia de conhecer meu reflexo partilhada em cacos de cem mil cristais, me ensinou quão forte posso ser, quão fraco posso ficar, me ensinou a ser cronista quando se dá de cara na parede, a saber enfrentar os vilões mais altos e fortes do que eu, me ensinou que uma vela acesa e algumas notas não é filme dos anos trinta mas a meninice de pular muros e vê-la nua tomando banho, ter os pés como raízes no chão e buscando sempre os frutos e pássaros para me habitar.Ter realmente o que dar e saber construir algo a mais além de barcos que afundam com a primeira bala de canhão. Amei todas as duas da mesma forma que um agricultor ama a sua terra. Mas a última em especial. Carrego-lhe sempre mais minhas palavras tombadas como um edifício resistindo ao seu tempo. A primeira teve meu relógio última teve as frações dos meus ponteiros.

Lembro-me agora após descrever minhas duas paixões, o renascer de uma luz. Que muitos comentam que é loucura minha, mas, é uma luz que entra na taberna pela noite sempre quando meus pensamentos caem na lama e o escuro lambe as velas acessas. O preto consome por completo tudo aquilo que se entrega, eu nem sempre resisto, mas, ela, a luz, tímida vem até mim e abre um sorriso. A esta nova. Não posso dizer amor que isso são para os corpos tardios pela falta de banho tem o grude um do outro, mas, a pureza da coisa, tem o trajeto suficiente de chegar na alma do outro. Atravessar a ponte e acender as luzes, enriquecer o campo com verdes vaga-lumes, trazer no perfume um raro mar. É a esta moça coberta de sol que agora estou sempre a buscar.

Ao fundo a tempestade certo dia derrubou uma frota vindo atrás da gente. Temos sorte. Nas guerras que duraram demais, parecia que não haveria mais amanhecer. Nestas profanas provocações da vida, todos nós perdemos alguns, a estes, que se foram corajosamente, fica uma fotografia guardada no meu criado mudo. Amigas conselheiras, que nos viram sujos, distanciaram-se, tiveram lá suas razões já que nem toda rua passa pela nossa casa. Sei que decepcionamos muita gente. Recebemos tomates na cara, fui acusado de falso herói e por algumas vezes passei dias na prisão. Felizmente. Vocês não passaram comigo. Tem lá suas próprias prisões. Comendo os dedos, não enxergado, bebendo as horas e dormindo no lado aonde a luz não alcança. Mas minha fuga foi mencionada em vários poemas homéricos e por muitas cidades, orgulhando há um pequeno público.

Juntos abençoada tripulação: Choramos, rimos, gritamos, amamos, amamos, amamos, fizemos, esquecemos, começamos, terminamos, bebemos demais, dormimos em camas macias, camas duras, lençóis das ruas , fomos sábios, mágicos, malandros e malandras, vilões e vilã, herói e heroína, covardes, revolucionários e revolucionarias e idiotas demais. Hoje reconheço todos familiares que há em mim, vocês fazem parte disto em formato de anjos e outro milagres. Durante nossa passagem por estes lugares também perdoamos, perdoamos e também não nos esquecemos. Foram uma porrada de coisas Né?

Agora caros companheiros e companheiras, eu agora, vos deixo, em seus devidos lugares. Não se preocupe comigo, repartimos este tesouro de estarmos vivos e juntos, igual por igual, o que foi meu eu dei a quem precisou e hoje o gasta da melhor forma. Não Preciso de muito. Apenas do que posso carregar na bolsa e nos bolsos. Chegamos, meus queridos, ao que considero ser o fim da paisagem. Desçam, vão, vão encontrar seus familiares, seus cães e gatos, suas garrafas de rum e vodca, deixa-me, sozinho neste navio. Com os cadernos cheios de planos de fuga e mapas, os alçapões cobertos de bugigangas, algumas garrafas de água e vinho vazios e uns punhados de arroz, oito ou cinco moedas de prata e ouro e um papagaio que voou quando eu o esqueci. Deixa-me velho velejar e novo seguir.

O sol vai perdendo força e sonolento, cai leve num lugar inalcançável, além do mar. A lua fria melancia, estrelas parecem brincos na orelha da preta noite, uma brisa gelada, sei que meus olhos vão avistar um novo lugar, sinto que meu senso solitário diz que estou prestes a chegar há algum lugar. Quem sabe eu atraque, sinta uma nova terra, quebre os remos, furo as velas, arrombo o fundo do navio e o verei naufragar, respirarei sua morte doce tragada por águas de piso raso e mole, darei as costas pro que foi e o que ficou. Chamar esse novo lugar quando eu chegar de - meu lar.

Não esqueçam companheiros e companheiras, nós nos veremos por ai, na verdade estamos sempre a ir? No momento não dá para ficar. Mas nem por isso, não parem a música, não apartem as brigas, não parem o gole de uma nova bebida, nem interrompam os atos de sexo, não aplauda antes de qualquer poema terminar. É uma forma de eu dizer que vou estar aonde todos vocês lembrar de mim.

Como disse caros companheiros e companheiras a viagem foi longa mais conseguimos atravessar todo esse tempo chamado: MAR.

Então vos desejo um: Brinde, abraços, beijos, apertos de mãos, acenos e ponta-pés. E bem vindos a sua nova terra e novo mar.

Do jovem-velho: Aldemir Suku.

21 fevereiro 2011

NEIM.

Chorar por um filho que ainda não nasceu. Tão pouco pelo dia que ele não morreu. Visitar um quarto que era bom. Pelo tentar esquecer, as aranhas invadiram os cantos das paredes onde fizemos juras, lá por ter tanto espaço em nossa relação, fizeram assim suas habitações. A vista plana que hoje é: favelas de lã.

Tomar um porre por um filho que poderia ser meu, pedir ao açougueiro uma caneca de sangue de minha geração. Alisar uma toquinha branca vazia de idéia, por o sol em seus olhos para que possa, apesar de eu ser de trevas, encandearem-me, risonhas luzes.

Rezar por este que poderia ser eu. Sentar no milho das lendas de nossas mães. Ver Cristo de mexendo e ter vontade de tirar ele do favor que nos fez na cruz. Ter nas madrugadas a visita de um choro. Seria melhor que terem notícia desta bala. Nem sei pra quê: tanto agouro.

Chorar por algo que ainda nem se sabe se vai ou não nascer. Ter fé no milagre que duvidamos se o curandeiro curou. Apostar nos cavalos que nem pernas têm. Esperar na porta o corpo maltratado de meu amor. Imaginar um berço que no escuro o breu chorou. Alisar a cabeça vazia de um neném que a mãe de mim matou.

Aldemir Suku

09 fevereiro 2011

Escritor vs Muriçocas, parte I

This is your name: Muriçocas

Para quem esta chegando do passado a esse novo século vá logo se acostumando com os climas tronxos, coisas que só podem acontecer no Brasil, filas pra tudo, trânsito e outros congestionamentos, câmeras em todos os lugares, desastres da natureza a todo tempo, pessoas nascendo cada vez mais estúpidas e um verdadeiro problema que eu particularmente vivo e alguns de vocês, quer dizer alguns, aqueles que moram na torre de babel estão isentos deste pequeno problema. Que é nada mais nada menos que: muriçocas.

Muriçocas são pequenos mosquitos do satanás que não vão deixar você descansar um minuto sequer. E por mais que você lute e busque soluções elas sempre irão voltar. Como aquele namorado chato que quando te encontra ou namorada no caso das mulheres é bem mais difícil, enfim, assim como estes dois, as muriçocas, ah eu odeio fazer essas comparações, quero engordar esse texto e fazer com que fique legal, mas, agora assim, esses bichos nós nunca saberemos como, mas, eles sempre vão voltar e fiquem certo: que serão longas horas que você passará de saco cheio até que finalmente eles morram.

Matando com as próprias mãos.
Primeiro. Táticas de guerra, saber onde o inimigo se esconde.
Segundo. Espremer-los contra parede não deixando ele escapar de seu território pois, ele pode denunciar sua posição.
Terceiro. Ter ótimos reflexos, sentir onde o inimigo vai beliscar, saiba, que sempre é nas pernas, nucas, costas e nos braços. Os mais safados, por baixo das saias, mas, até hoje não temos nenhuma ocorrência disto.

Tentativas de camuflagem.
Sentindo as mordidas vejo que é a hora de me camuflar, calças de pano, camisa de mangas, mesmo que eu esteja afim de dar uns amassos na patroa não há escapatória, tira a calça rapidinho e depois veste se não quiser levar picada na bunda em duplo sentido. A calça pode e tem que ser de pano não jeans não ser que você queria dormir já pronto pro trabalho.
Outra solução é procurar mexer o corpo pra que elas não pousem e nisso vale tudo, forró, axé, dançar o creu, pular, vale até simular síndromes de tourette ou parkson.
As vezes vasculho meus bolsos na esperança de achar ali perdido alguma nota, quando acho, não penso nem em terminar essa texto, corro pro supermercado, mercadinho, quitanda, bocada, qualquer lugar que venda baygon e mando uma rajada semelhante a cena de Rambo com sua metralhadora. Quando não tenho essa maravilha em minhas mãos vou com sentinela, mas, as muriçocas já adquiriram uma mascara de gás para evitar o cheiro da fumaça, isso não adianta nada, queimar aquela rodela verde que eu chamo de oiti de marciano por algumas horas, uma catinga de lascar, quando penso que vai ter resultado, está eu tomando nebolizador por causa da fumaça que causa asma. E os mosquitos comemoram – e isso companheiros e companheiras a causa é nobre e luta continua.

Achando falhas no campo de batalha.
Isso acontece comigo simplesmente porque vacilei, certamente só eu como o vizinho também que fez essa cagada, deixando a caixa d’água aberta, poças d’água, mato ou terreno baldio, tudo isso faz com que esse mosquito vindo do inferno nasça para por o terror no mundo.

Cessar fogo?
Certamente vou, pelo menos, por enquanto que eu estiver dormir ou for ver aquelas coisas no computador que só vejo quando a mulher dorme. É ai que elas atacam, no fraco do homem, nas canelas, nas costas. Ficam voando em cima da minha cabeça. E há aquelas que zombam quando se erra a mira da palma de mão, então quando começo a me irritar, elas passam voando dando risinhos bem no início do espaço sonoro do ouvido, ô barulho incomodante.
Por mais que limpe sempre a casa por mais que a preguiça seja um dos meus pecados favoritos, mantenho tudo limpo, mesmo assim sofro com a turma da Maga. Apelido esse que acabei arranjar. Porém quando ela esta gordinha de sangue fica doidona e nem levanta vôo. E ai que se deve pega-las.

Vingança com as próprias mãos
A danada fez o que fez comigo, esperou lá no teto eu chegar cansando do trabalho, tomar um banho o cheiro recém saído do banho é que a excita ainda mais, na hora que me sento, ponho um café pra ver as boas notícias do jornal, ela desce e chama a canbada, vai por baixo da mesa, pois, adora ser discreta, senta de leve no couro, que é pra não assustar e dá a primeira mordida da noite. Na intimidade a mesma coisa, no vuco-vuco dos corpos pegando fogo elas participam picando as costas, depois no sono profundo elas trabalham livremente.
Passaram a noite assim, na maior farra, quando amanhecem estão nas paredes, gordas de sangue e cansadas, então, é ai que você respira, ri, esquenta a mão e manda ver, é uma verdadeira chacina, eu simplesmente exponho minha alma selvagem e de carnificina. As que escapam, contam a história, as que não, ficam pregadas na parede para que as formigas façam o resto do trabalho, recolher seus corpos e enterrá-las nas mais profundas e desconhecidas cavernas aonde minha curiosidade sobre as formigas não acompanham.

Fim feliz?
Nada quem dera, se todas as muriçocas morrerem de uma só vez, eu estaria simplesmente satisfeito, haveria uma festa e feriado nacional, a rendição das muriçocas. Enquanto isso, vou ai, procurar dormir. E detalhe enquanto fiz esse texto matei cinco delas, mesmo com a raja de baygon, mesmo com os sentinelas acessos, e minhas palmadas, elas, ainda insistem, porque? Porque?
Soube que uma nova arma foi criada, uma raquete que dá choque e isso tem isso um grande avanço já que pode derrubar vários pelotões delas. Mas enquanto os novos recursos não chegam da capital, vou me camuflando como posso.
Ops... Acabei de matar a sexta muriçoca, quer dizer, a sétima, depois disso, não falo mais nada.

--
Aldemir Sukhu

Escritor vs Muriçocas, parte II

Num sei o que há com as segundas-feira mas me sufoca o colarinho em ver que tive um dia tão monótono e não fiz nada que mudasse o giro do mundo. Apenas acordei atrasado, passei no trabalho, fui pro computador, andei pelo centro da cidade pra resolver pequenos terremotos, passei na casa da minha mãe que acompanha a Folha de Pernambuco o Bandeira 2 diariamente pra ver se não eu estou lá na página policial dado como morto, comei, falei besteiras, passei na casa da turma, algumas cervejas e a mesma ladainha de sempre: mulheres, despedidas, ônibus de volta pra casa, casa, sono, sonhos.

***

Antes de chegar perambulei calmamente mais temendo a assaltados ou sismas, nas ruas do centro da cidade, já tarde, os olhos tristes amarelados do postes guiando-me e minha sombra carregando os rascunhos do muro desaparecendo de tanta propaganda. Como mudei de endereço; quer dizer, mudei tudo em mim, barba, cabelo, endereço, jeito, idioma, atitude, olhos, beijo, sexo, mudei tudo de lugar para ver se meu habitar ganhava novos ares e está ganhando. Percebi que só mudar os moveis de lugar ou jogar algumas coisas que a casa fica mais limpa e espaçosa.

***

Chegando na casa nova os dois cachorros que moram comigo e mais um cara, me recepcionaram, antes, era uma família inteira, hoje são apenas dois cães fervendo de emoção dentro dessa casa vazia.

***

Brinquei um pouco com os dois e a preocupação já latejava – vai ser uma longa noite. Como sai de casa apenas levando um dúzia de calças, alguns livros e discos, três pares de sapato, um lençol, um relógio e uma mala. Não tinha como transportar mais nada, faltava uma coisa fundamental que era um ventilador e o resto de tudo o que possui nesta vida queimei no esquecimento da memória.

***

Noite alta, tento ler, o tédio cresce entre os campos mudos dessa quarto, o vazio, a solidão, o esquecimento e a falta de habito de visitar outras memórias.

***

Quando elas percebem que estou triste e muito de dentro mim, aproveitam a frágil e cega situação e se organizam pra fazer a festa na minha depressão. E tome mordida e tome tapa pra se derrubo seu ataque massivo. Caço muriçocas com os olhos, mas, apenas escuto os risinhos de suas minusculas asas. Assim foram as primeiras semanas nesta casa. Voava pela madrugada, pensamentos, diálogos comigo mesmo em voz alta e algumas poesias recitadas pra ninguém ouvir. Tentava matar o tempo seja lá como fosse. Mas eu só conseguia dormir às 6h da manhã, era à hora em que elas se cansavam e iam pra suas malocas. O sono durava muito pouco, apenas 1h. No domingo eu me apresentava com um aspecto cansando, olheiras como uma bacia d'águas nos meus olhos, bocejos, mais bocejos, a engrenagem da mente cada vez mais parando de circular. E as danadinhas já ansiosas para mais uma noite de inquietação e sangue.

***

Andei louco por dentro de casa, pois, não estava mais suportando o aperreio que as muriçocas me causavam, mosquitos do inferno, como fantasmas que atormentam as casas para que possam ter mais privacidade – como é que um homem bem dorme mal? Andando de um canto a outro e vigiado cada voo delas fiquei a perguntar isso varias vezes.

***

Mexendo nas coisas da minha nova residência encontrei num quarto abandonado um ventilador, triste, coberto de poeira, esquecido e mal tratado semelhante a mim nesse dia. Dei uma limpada e fui ver qual era seu problema. Detectei numa fração de segundos com o olho a fio que só eram alguns fios desencontrados. Nada que um estilete e uma fita isolante não resolva – enquanto isso as muriçocas já beiçavam minhas pernas – rezei pra tudo quanto é Santo pra que isso desse certo. Quando pluguei a tomada no interruptor. Nossa. Vu-ala. Gênio. Fabuloso. Funciona. Caros amigos e amigas, conhecidos e conhecidas, pessoas comuns e extraterrestres, futuras namoradas e inimigos de briga, confesso uma coisa a vocês. Eu nunca sentirá uma alegria tão insignificante como essa. É duro. Viver num país mediócre como esse onde somos abençoados por dificuldades. As minhas dificuldades são baseadas nessas histórias que há um bom tempo vocês leem ou não. Mas. Nunca realmente senti feliz em vê-lo ali girando e soprando flocos e mais flocos de poeira. Espelhei nesse objeto velho e esquecido e por causa de um problema ninguém o quis, mesmo assim, ele me mostra o quanto ele estar disposto a dar um minuto de sossego na minha vida já que tudo me incomoda.

***

Cai no colchão me lágrimas, chorei muito, durante uns 20 minutos e senti o vento empoeirado do ventilador sujo tanger minhas lágrimas, pra que não caíssem em mim, pude ir além do silêncio, da dor, da melancolia, do tédio e do mal humor, sentir abraçado por aquele eletrodoméstico funcionar a todo custo pra mim.

***

Depois disso comecei a zombar das muriçocas – olha bando porra, nunca mais vocês vão morder o negão aqui, olha, vão ficar com fome, vão ficar fome, vão ficar com fome – depois o ventilador deu um teco e fiquei logo preocupado pois, minha alegria sempre foi pouca, quando vi o danadinho estava só tentando esboçar um sorriso de satisfação em me servir e ficou num tec-tec-tec sempre quando terminava o curso da esquerda.

***

Fiquei deitado no escuro, coberto como um pacote, finalmente, paz. O ventilador foi me ninando. Até que adormeci como há muito tempo não fazia. O mais emocionante é que de manhã ele ainda estava lá.

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Aldemir Sukho