Num mundo de martírios
O tempo exala sofrimentos ocres
E, de passo em passo,
A desesperança latente, lateja
Como a fome voraz
Que racha estômagos intactos.
As tripas sêcas colam-se, impotentes,
Ante a falta de comida e fezes
Que, como bichos, já rosnaram
Na flatulência de seus espasmos.
O bucho sêco, as pernas sêcas, os braços sêcos
Contracenam com ventres sistosomáticos.
Urubús já se avizinham
E nuvens de moscas festejam o cadáver ambulante,
Que cambaleia na sua agonia desidratada.
Via satélite é menor a dor
Via satélite não se sente odor
E quando o clamor, vão, dos moribundos
Nos enche os ouvidos, a cabeça, a casa, o pulmão
Temos sempre um botão, por opção,
Que, num clique, nos impede
Que nos atinja também o coração.
Paulo dos Anjos
poema retirado de CRÔNICAS D'ALÉM-MAR
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15 agosto 2011
VIA SATÉLITE II
Nas folhas acesas dos jornais
Cintilam fatos, fotos, notícias.
Em frases que choram e sangram,
As manchetes nos mancham de tristeza e revolta.
Nem tudo são flores, neste mundo
Mas há dor demais na carne exposta
À fome, à bala, à sêde, ao desprezo.
Chorem Europas e Américas
E seu pranto será pouco para fecundar
Tantas Áfricas e Bósnias, Iraques e Haitis
Onde viver virou escárnio e a guerra endureceu os homens
Mas a culpa está no ouro, cintilante, reluzente;
No poder arrogante, de uma ambição demente
Que transforma gente em fera que extermina gente.
O som dos obuses substituiu a sirene das fábricas
E os gritos de pavor; o riso das crianças,
Estraçalhadas e nuas.
Da tela da TV o sangue escorre
E as imagens são úlceras provocadas à ferro e fogo
Por uma ganância impiedosa e corrosiva.
Que ardam os mandantes e mandamentos
Dessa guerra infame e dessa fome insana!
Basta de braços, pernas, cabeças, sonhos, decapitados!
No meio do fogo cruzado uma criança chora
Enquanto uma mãe jaz, moribunda
Em meio aos escombros e destroços
E tudo não passa de notícia.
Enquanto assistimos, passivos,
Às cenas dantescas de vergonha e morte
Em que o homem vira fera,
Nesse circo de horrores,
Transmitido VIA SATÉLITE.
Paulo dos Anjos,
poema retirado de CRÔNICAS D'ALÉM-MAR
Cintilam fatos, fotos, notícias.
Em frases que choram e sangram,
As manchetes nos mancham de tristeza e revolta.
Nem tudo são flores, neste mundo
Mas há dor demais na carne exposta
À fome, à bala, à sêde, ao desprezo.
Chorem Europas e Américas
E seu pranto será pouco para fecundar
Tantas Áfricas e Bósnias, Iraques e Haitis
Onde viver virou escárnio e a guerra endureceu os homens
Mas a culpa está no ouro, cintilante, reluzente;
No poder arrogante, de uma ambição demente
Que transforma gente em fera que extermina gente.
O som dos obuses substituiu a sirene das fábricas
E os gritos de pavor; o riso das crianças,
Estraçalhadas e nuas.
Da tela da TV o sangue escorre
E as imagens são úlceras provocadas à ferro e fogo
Por uma ganância impiedosa e corrosiva.
Que ardam os mandantes e mandamentos
Dessa guerra infame e dessa fome insana!
Basta de braços, pernas, cabeças, sonhos, decapitados!
No meio do fogo cruzado uma criança chora
Enquanto uma mãe jaz, moribunda
Em meio aos escombros e destroços
E tudo não passa de notícia.
Enquanto assistimos, passivos,
Às cenas dantescas de vergonha e morte
Em que o homem vira fera,
Nesse circo de horrores,
Transmitido VIA SATÉLITE.
Paulo dos Anjos,
poema retirado de CRÔNICAS D'ALÉM-MAR
11 julho 2011
VAREI! - Paulo Dos Anjos
No embalo do côco o Tôco
Tropeçou em Aluisio
Num Rojão que, sem aviso
Pipocou na noite afora,
Meu verso afoito e preciso.
Afoito e fora de hora
Meu verso de rima à pique
Foi fazer um piquenique
Pras bandas da Impoeira,
Com fome e poucas maneiras
Danou-se a comer poeira.
Baldo do Rio baldeado
Sêco rio, sêco roçado,
Ninfa do peito arriado
Sem macho que dela cuide
Se as barbas de um tal Luiz
Que nunca ficam de molho
Me juram sinceridade,
Quero ver quem aposta um olho
E se arrisca a ficar zarolho
Se isso tudo não é verdade
Um tal Rosildo cantando
Trepado numa Oliveira
É a prova mais certeira
Dessa terra de milagres
Dessa usina de doidos
Dessa fábrica de malucos
Confusões de mamelucos
Cafusos mandando brasa.
Confissões dentro de casa
Festa doida nas campinas
Maracatús, catarinas
Catarinetas, nausvios
Pianos de cauda curta
Meninas de saia justa
Só não gosta quem não vê,
Só não gostou quem não ouviu.
O fogo queima o pavio,
O pinto pia seu piu
O sol trespassa a vidraça,
Vassoura varre na praça
Tanta esperança no cio.
Espera de cem mil anos
Que a história mude de rumo
Que o que está torto se aprume
Que o feio fique bonito.
Vou teimando que acredito
Suscito em minha embolada
Que isso tudo um dia mude
E continuo na estrada
Sonhando como um menino,
Correndo ao encontro do tempo
Quebrando sina, destino;
Maldição de homens malinos
Que há tanto enganam a gente.
Boa terra, má semente
Cenário de mil porquês
De esperanças sem respostas
Tantas dores sobrepostas,
Tantos anos de talvez.
Às vezes desencantando
Cantando e expondo o que sei
Na esperança esperançando
Com teimosia de rês.
Mas quando desanimado,
Indignado, arretado
Com os rios de sordidez
Sintetizo minha revolta
Com uma palavra concisa
Que em minha terra é a mais precisa,
Serve ao servo e serve ao rei
E, antes de perder o senso
Mais vale perder o siso
Berro sem preciosismo:
VAREI!
Paulo dos Anjos
Tropeçou em Aluisio
Num Rojão que, sem aviso
Pipocou na noite afora,
Meu verso afoito e preciso.
Afoito e fora de hora
Meu verso de rima à pique
Foi fazer um piquenique
Pras bandas da Impoeira,
Com fome e poucas maneiras
Danou-se a comer poeira.
Baldo do Rio baldeado
Sêco rio, sêco roçado,
Ninfa do peito arriado
Sem macho que dela cuide
Se as barbas de um tal Luiz
Que nunca ficam de molho
Me juram sinceridade,
Quero ver quem aposta um olho
E se arrisca a ficar zarolho
Se isso tudo não é verdade
Um tal Rosildo cantando
Trepado numa Oliveira
É a prova mais certeira
Dessa terra de milagres
Dessa usina de doidos
Dessa fábrica de malucos
Confusões de mamelucos
Cafusos mandando brasa.
Confissões dentro de casa
Festa doida nas campinas
Maracatús, catarinas
Catarinetas, nausvios
Pianos de cauda curta
Meninas de saia justa
Só não gosta quem não vê,
Só não gostou quem não ouviu.
O fogo queima o pavio,
O pinto pia seu piu
O sol trespassa a vidraça,
Vassoura varre na praça
Tanta esperança no cio.
Espera de cem mil anos
Que a história mude de rumo
Que o que está torto se aprume
Que o feio fique bonito.
Vou teimando que acredito
Suscito em minha embolada
Que isso tudo um dia mude
E continuo na estrada
Sonhando como um menino,
Correndo ao encontro do tempo
Quebrando sina, destino;
Maldição de homens malinos
Que há tanto enganam a gente.
Boa terra, má semente
Cenário de mil porquês
De esperanças sem respostas
Tantas dores sobrepostas,
Tantos anos de talvez.
Às vezes desencantando
Cantando e expondo o que sei
Na esperança esperançando
Com teimosia de rês.
Mas quando desanimado,
Indignado, arretado
Com os rios de sordidez
Sintetizo minha revolta
Com uma palavra concisa
Que em minha terra é a mais precisa,
Serve ao servo e serve ao rei
E, antes de perder o senso
Mais vale perder o siso
Berro sem preciosismo:
VAREI!
Paulo dos Anjos
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