01 outubro 2009

Flores de chuva

Minha casa não tem porta.
Nem telhado, nem janela.
É sem tranca e sem tramela.
De tão velha, ficou torta.
Comigo ninguém se importa.
Nem mesmo meu bem-querer.
Que espero um dia bater
Nas portas do meu coração.
E entrar com permissão
Na saleta do prazer.

Sou casebre sem parede.
Tranca, retrancas ou teto.
Meu bem é o arquiteto.
Dispenso camas ou rede.
Sou água da sua sede.
O doce acre da uva.
Estrada reta sem curva.
Sou tapera sem biqueira.
Onde em noite de goteira.
Caem no chão flores de chuva.

Sebastiana de Lourdes

Floresta nossa

Floresta nossa que olhais o céu.
Que Amazônica seja o vosso nome.
Preservado seja o nosso reino.
Seja feita a vossa vontade.
Neste resto de terra onde fincais os pés.
O desmate de cada dia vos desfaz hoje.
Perdoais tantas ofensas.
Embora não perdoemos a quem vos tem ofendido.
Não deixeis a lei dos homens cair em tentação.
E que livre todas as árvores e plantas do mal.
Amém.

Sebastiana de Lourdes

[...]

Vida,
Vi-a na via compassante
Passageira sem passos
Estática,
Sem referencial.

Tal como uma foz,
Turbulenta, mas tão igual,
Ao segundo que perdeu-se
No oceano do trivial.

Thiago Albert

Trago sombras/sem corações

Agora engulo sombras.
Para me recuperar desta noite cortante.
Para me cortar nesta noite horripilante.
Noite de lombrigas, longas brigas e lombras.

Noite de medo. Sono que não trouxe
De agonia apagando o fogo.
De ferro furando o olho.
De velhos sorrindo a toa na esquina com algodão doce.

Noite de casas que ganha vida.
Que nasce na rua das porteiras.
Que não cega uma parteira.
Noite que não apara sonho. Não prepara saída.

Noite de sons que não são canções.
De trago que não trago.
Noite que congela lago.
Noite que gera criaturas sem corações.

Vidal de Sousa

Qualho

Tento não coagular os desejos,
Que marmorizam-me faminto,
Que denuncia queijo,
E o cheiro a quilômetros sinto.

Tais cobiças não posso alimentar
Porque nenhuma resposta recebo,
Recibo que tenho de aceitar
Num tchau alegremente acerbo.

Todos os dias tento me controlar
E ainda não consigo quando sou percebido,
Diluindo com um leve machismo no ar
E vendo o que já foi triturado ser incansavelmente dividido.

E piora a cada maçante semana,
Quanto mais qualho mais incontrolável,
A cada despedida a esperança engana,
Torcendo este ser deplorável,
Num sorriso de moinho de cana.

Vidal de Sousa

Resto do meu dia

Alimente-se dos segundos que sobram de meu dia,
Abra as portas da gaiola,
Permita que tua parasita haja sobre mim,
Degrada-me
Que me agrada te ver sorrir,
Suga o desnecessário que é bom pensar que é feliz,
Pisca não,
Lambe até os ossos,
Pois o que é nosso,
...é em segundos!

Vidal de Sousa

Meu lado calado

Sinto uma dor
Que não me dói
Em um tempo indefinido,
Travo uma batalha vã,
Contra ninguém,
Meu velho amigo.
Faço do ódio de não ter raiva
Um sorriso
Por que meu sangue
Ainda congela um calor frio
Por saber,
Que o maior impulso
Da certeza
É a dúvida.
Nas vezes que estou sozinho
Te espero sem nexo
Pois não marquei hora
Nem assinei o teu contrato.

Wendell Nascimento

Barcarola

Ela passava, passos instáveis; ora cravo, ora rosa. A areia quente exalava cheiro da paisagem, um tanto maltratada pelo descaso cotidiano. Tá vendo, filho? O dia tá lindo hoje, um sol bem brilhante... Humm... Umas poucas plantinhas, insignificantes, as coitadas, acenavam sem sucesso. Tudo bem, eles estão ocupados, mas um dia olharão para nós. Ela olhou, logo após tê-las chutado, o chinelinho rodopiou escapulindo. Pára de chutar, bebê! No futuro vai ser bem jogador de futebol. É cedo pra pensar nisso. Realmente, ela não queria perder tempo com devaneios. A espera, bem sabia, ia ser longa.
Ela aparou-se na sombra, acariciou a barriga, murmurava num dialeto infantil, levantava o rosto para a brisa que convidava para o verão. Não, agora não. Ele vai chegar lá, já, já. Vem de longe, o atraso dá pra agüentar. Pára um senhor, muito suado, boné do Corinthians. Quanto é? Vinte e cinco, moça. Tem de todo sabor? Tem de todo sabor. Um de limão. Seu troco, obrigado. Ela pegou sem responder, talvez nem tivesse dado conta. Olhava o povo que ia e vinha por perto. Calma, meu filho, papai já vem.
Ela estava muito desligada. Ansiedade tem dessas coisas. Mordiscava com sensibilidade e avidez o picolé, brilhavam os lábios refletindo a eterna busca da própria língua. Liga. Ligo? É melhor não, ele pode ficar com raiva, não gosta que encha o saco assim. Pega o celular, senta e perde tempo com uns joguinhos. Vai passando um pedacinho da eternidade. Um estalinho a atira de leve à atenção: o que foi? Uma briga lá do outro lado, moça. Melhor não ficar por aqui. Ah, valeu! Obrigada. Já, já vou sair.
Ela sentada olha o mar de gente, sexta-feira, arruma o vestido de flor, quer que não atrapalhe a visão da barriga, talvez querendo a visão do feto. Balbucia mais uns mimos, não se importa com a maré de má sorte dos últimos tempos. Papai já vem, fica quietinho! Não chuta! Olha os seios fartos, as pernas cheias e bem contornadas. Sente-se desejável. Orgulha-se, mas não dá tanta atenção às cantadas típicas daquele local. Tira uma foto com o celular, beijinho para a câmera, vê as nuvens enchendo o céu da tarde. Tá vendo lá? Olha só, aquela nuvem parece um sorvetãooo... Bem grandãooo... Aquele parece um barco, ali um peixinho, nadando no céu, hein, filho? Mais um grupo passa, nada da espera passar. Sem desespero, levantou-se, espreguiçou-se com as mãos na cintura, deu uma volta por perto pra comprar um lanche, pisou na pobre da plantinha outra vez, nem percebeu.
Ela vê o movimento aumentar, gente para lá e para cá. Pena não poder aproveitar esse verão, quando ele chegar, aí sim. Não sentia tédio, contentava-se em observar, as pessoas para um lado e para o outro. Celular descarregou. Porra! E se ele ligar? Acho que não, ele prometeu que vinha, ainda tá cedo, né, filhote? Abre um pacotinho de jujubas, engole umas duas de uma vez e senta num cantinho. Assopra. Ri. Ri para uns dois homens que passam. Um deles percebe, ela disfarça. O rapaz sente algo estranho. Tá passando mal, moça? Não, não, tá tudo bem, brigada... E assopra, morde os lábios num desajeitado sorriso de gratidão, estragado por um espremido e indesejável ai. E um mar de gente cruza, mal liga, quase chuta, como quem chuta as plantinhas amassadas nas frestas das calçadas. Uns dois se assustam, correm. Até uma mulher meio trêmula correr para perto. Assopra. Calma, papai já chega... Ai... Que que ela tem? Eu não sei, eu... Corre, pede ajuda! Ai... Calma, respira fundo, minha senhora. Ai...
Ela assopra com mais força, com mais desespero, exibe um sorriso meio chocho, segura os ais com todas as forças. Um policial chega, não sabe o que fazer. Já uns mais desocupados cercam a cena. Uma gota de lágrima cai, uma de sangue também. As flores do vestido manchadas, murchas, não mais tão vivazes. Ai... Calma, minha senhora! A mulher rasga um pedaço de pano, segura as pernas. O sangue ferve, escorre, uns dois pivetes que saíam do trem começam a rir. Calor... Ai... O policial pede espaço. Ela grita mais alto, já sem segurar, como se visse os zunidos das pessoas. Os dois rapazes dizem ter chamado uma ambulância. Outro trem vai partir, as pessoas se apressam. Uma senhora pede o celular dela. Quem sabe se chamar algum parente... Não consegue. O trem parte, as pessoas evaporam. Ela cava o chão com as unhas. Ai... Força... Um outro passa com um isopor. Alguém compra água, joga no corpo, dá de beber. Bebê. Calma, papai já vem. Sai um trem, chega outro mais. Um grito maior, pra dentro, engolido, engasgado no choro. Um mais sensível chora. Chora a criança, nas mãos da senhora que passava. O cordão, a gente tem que cortar, arranja algo! Arranja! Um arranjo foi feito com um canivete do policial, mais água pra limpar. Três de branco entram na estação, abrem uma maca pra levar a moça até a ambulância. Não! Eu não vou! Me deixa em paz! Ele já vem! Ele quem? Ele já vem. A outra mulher, com as mãos manchadas do sangue por baixo do vestido de flor, deixou escorrer uma lágrima. O policial não sabia o que fazer. O bebê chorava. Calma, papai já vem. Os homens a agarram, uma injeção, ela reluta, puxam o bebê, ela reluta, esperneia. Não! Não! Ela se acalma, aos poucos pára, olha grogue para os curiosos, sorri. Tenta falar enquanto os demais aplaudem a mulher que prestou socorro, ainda muito tensa. Tenta falar enquanto é posta na maca...
Respira...
Calma...
Papai já vem...
Papai...
Já...
...
As pessoas correm, outro trem vem chegando, a areia quente trazida nos pés dos outros exalava o cheiro da paisagem, um tanto maltratada pelo descaso cotidiano. Umas poucas plantinhas, insignificantes, as coitadas, acenavam sem sucesso. Tudo bem, eles estão ocupados, mas um dia olharão para nós. Todos correm, já é hora. Um homem vende água, outro picolé. O policial conversa com a mulher com as mãos sujas de sangue, oferece-se para ajudar na limpeza. Você vem sempre aqui? Claro, é caminho pro trabalho. É mesmo, é? Trabalha onde? Lá na zona leste, perto...
A conversa vai baixando, tornando-se insignificante.
O mar de gente vai e volta.
Tocando o barco.

Wander Shirukaya

20 setembro 2009

7 de setembro (relatório)








No desfile dos excluídos goianenses o Silêncio Interrompido junto com o Maracatu Baque Fulor vão as ruas com seus soldados coloridos armados de ritmo e dança onde a única regra é faça você mesmo. A nossa marchar é no compasso das alfaias, o nosso mascote da independência é o Bumba meu boi. Na verdade não da independência e sim dos Independentes. Independência & Vida!

Silêncio Interrompido
Por que neste país tudo só se resolve no grito:
Quem dá mais
Três por um Real
Vamos tentar a sorte
Independência ou morte
E quem não chora não mama
Todos com orgulho do Brazil
Essa pátria ou puta que nos pariu?

Poetas da independência ou da interferência?
Marchando unidos virando os copos
E nosso brado será ouvido
No dia seis de setembro deixamos o legado
- E quem precisa de ordem, e este progresso macabro?
Vamos dar fim ao que Pedro segundo fez de improviso
Todos bestialmente livres brindar pelo Brazil
Essa pátria ou puta que nos pariu?

Philippe Wollney

22 de Agosto de 2009 (relatório)

vídeos poesia concreta

curta de "mãe nininha"

artesanato

livretos

vinís

instrumentalha

luiz duarte

lucas mendonça e thiago laranjeiras

one black two white

os doidos todos reunidos


22 de Agosto de 2009
Silêncio Interrompido comemorando 40 anos de Woodstock, 20 anos sem Gonzagão e Raul.

Rolou de tudo: recital, mostra de vídeos poéticos, curta metragem sobre coco de roda, feirinha de artesanato, lançamento dos livretos dos poetas goianenses, lançamento da antologia “cem poetas sem livros” do movimento LITERA-PE, apresentações musicais com a INSTRUMENTALHA; LUIZ DUARTE; LUCAS MENDONÇA E THIAGO PEDRO; ONE BLACK TWO WHITE.

Uma das realizações mais participativas do Silêncio Interrompido. Agradecemos a todos os amigos, brothers, chegados, colaboradores e participantes do eventos, a Sociedade 12 de Outubro e ao PONTO DE CULTURA ALAFIÁ.