Nas folhas acesas dos jornais
Cintilam fatos, fotos, notícias.
Em frases que choram e sangram,
As manchetes nos mancham de tristeza e revolta.
Nem tudo são flores, neste mundo
Mas há dor demais na carne exposta
À fome, à bala, à sêde, ao desprezo.
Chorem Europas e Américas
E seu pranto será pouco para fecundar
Tantas Áfricas e Bósnias, Iraques e Haitis
Onde viver virou escárnio e a guerra endureceu os homens
Mas a culpa está no ouro, cintilante, reluzente;
No poder arrogante, de uma ambição demente
Que transforma gente em fera que extermina gente.
O som dos obuses substituiu a sirene das fábricas
E os gritos de pavor; o riso das crianças,
Estraçalhadas e nuas.
Da tela da TV o sangue escorre
E as imagens são úlceras provocadas à ferro e fogo
Por uma ganância impiedosa e corrosiva.
Que ardam os mandantes e mandamentos
Dessa guerra infame e dessa fome insana!
Basta de braços, pernas, cabeças, sonhos, decapitados!
No meio do fogo cruzado uma criança chora
Enquanto uma mãe jaz, moribunda
Em meio aos escombros e destroços
E tudo não passa de notícia.
Enquanto assistimos, passivos,
Às cenas dantescas de vergonha e morte
Em que o homem vira fera,
Nesse circo de horrores,
Transmitido VIA SATÉLITE.
Paulo dos Anjos,
poema retirado de
CRÔNICAS D'ALÉM-MAR